P R I M E I R A   P Á G I NA
C u l t u r a   d a   C o o p e r a ç ã o
1 Introdução
2 Cultura da cooperação: aprendendo com girassóis e jardins
3 O papel do agente de mudança em relações de cooperação
4 Anexo I

Fatores importantes a serem observados na Constituição/Formação, Funcionamento e acompanhamentos de grupos associativos
5 Anexo II

Contos e histórias: a importância das metáforas

Os macacos e a escada

Um modo de vida

Os sons da floresta

Os talentos

As longas colheres - sendo solidários

A flor e a pedra
   
  Créditos

 



 

 

 

Anexo II -
U M   M O D O   D E   V I D A


Somos uma nação de comunicadores, mas comunicação nem sempre é conexão. Lembro-me de uma cena em um filme de Woody Allen na qual um grupo de nova – iorquinos solitários está sentado à mesa tomando cerveja, conversando freneticamente uns com os outros a fim de aliviar a solidão. Todo mundo fala ao mesmo tempo. Aos poucos, eles vão elevando a voz e interrompendo uns aos outros na tentativa de se fazer ouvir. Por fim, ficam tão desesperados que acabam, realmente, cuspindo uns nos outros no esforço de fazer contato, o que eles nunca conseguem. Essa cena, em geral, provoca risos. Acho que cada vez mais a vida vem se assemelhando a isso.

Nos dias de hoje, a desconexão é um hábito, um modo de vida. Eu não me dera conta do quanto vivia isolada até passar uma semana em Fiji. Chegando à noite, desfazendo as malas, peguei despreocupadamente o material de leitura deixado no quarto pela gerência do hotel. Sob o título: “Diferenças Culturais”, surpreendi -me ao descobrir que em Fiji é considerado “boas maneiras” cumprimentar pessoas totalmente estranhas na rua. O folheto era bem explícito, não era motivo de alarme ver-se cumprimentado por estranhos, na verdade, as pessoas achariam uma grosseria se eu não respondesse à altura.

O modo correto era fazer contato visual e reconhecer a presença do outro com um meneio de cabeça ou um sorriso, ou ainda dizendo Bu-la. No lugar onde fui criada, a cidade de Nova York, uma coisa assim seria exatamente imprudente. Achando graça, decidi tentar.

O que isso significa na prática é o seguinte: você desce a rua até o correio, vai comprar selo para um cartão - postal. Pelo caminho pode cruzar com três ou quatro pessoas, saudando cada uma com um aceno de cabeça ou dizendo Bu–la e recebendo delas o cumprimento. Você compra o selo, uma transação que demora só um instante. No caminho de volta, passa exatamente pelas mesmas pessoas, e espera-se que você torne a cumprimenta-las, muito embora tenha cruzado com elas apenas alguns momentos antes. A princípio isso é irritante, mas no final de uma semana já se tornou uma segunda natureza.

Retornei então aos Estados Unidos. Saindo às pressas para abastecer a geladeira vazia, vi-me em uma rua movimentada da Califórnia. Absolutamente sozinha. Ninguém fazia contato visual. Ninguém me cumprimentava. Ninguém sorria. Bem no meu íntimo, senti-me invisível e diminuída. E, no entanto, a rua era perfeitamente conhecida. Era minha terra.

Os habitantes de Fiji têm consciência de uma lei humana básica. Todos influenciamos uns aos outros. Cada pessoa é parte da realidade dos outros. Não existe isso de passar por alguém e não reconhecer seu momento de conexão, de não deixar que os outros saibam o efeito que produzem em você e não ver o que você produz neles. Para os habitantes de Fiji, a conexão é natural, simplesmente o modo como o mundo é feito. Aqui passamos uns pelos outros com nossas luzes apagadas, como navios à noite.

REMEN, Rachel Naomi. Histórias que Curam – Conversas Sábias ao Pé do Fogão. Ágora, São Paulo 1998.